domingo, 16 de março de 2008

Cristo comigo

Senti o teu abrigo. Fosse para onde fosse senti que te levaria comigo, numa terna lembrança dos momentos que me deste a ganhar e daqueles que choraste comigo e por mim. Levar-te-ia na esperança que constituis na minha vida, no desassombro que me ensinaste e me dá a coragem de viver com os olhos postos no céu, no amor profundo daqueles que caminham comigo.
Apercebo-me agora que por muito que pareça estar na penumbra da noite escura, nada temerei porque habita em mim a toda a tua luz. E se o meu rumo mudar, se o passado se tornar futuro, olharei as tuas pegadas e seguirei um novo rumo, com a certeza que de não me abandonarás.

quarta-feira, 12 de março de 2008


Remexia numa espécie de baú das recordações, e deparei-me com esta reliquia. É sem duvida daquelas fotografias que me recordam " momentos que a vida me fez amar tanto".

Basta um sonho



Às vezes a vida parece fugir-nos, com os nossos próprios pés. Também eles fogem, para bem longe, bem longe de nós. Respiramos apenas e corremos, já sem pés atrás dela. Ou então esperamos que ela se cansa de viver fugida e volte de novo a casa. A casa que construímos juntos, dias felizes. É uma espera verdadeira, pensamos nós, digna de quem não tem sede de ser feliz afinal, digo eu. De quem não tem sede de sonhar, de quem não quer ver naquele pedaço que nos foge um motivo suficiente que desinstale, da comodidade, ou morte, que é vivermos parados. Vermos a dinâmica que nos envolve, e mesmo assim, e apesar de já sem pés, não termos a coragem de gatinhar atrás daquela que um dia nos fez amar tanto. Não termos o desassombro de perceber que a vida pode ser suportável mas nunca suportada. De cada vez que damos um passo lutamos por nós, será que não basta? Mesmo que o querermos não tenha nenhuma relação causal com o conseguirmos, pelo menos não no imediato, mesmo que haja quedas, não valerá a pena sonhar? O sonho é vida e mesmo quando pensamos que sonhar é estar parado, sem sabermos, a vida pela qual corremos atrás, vive escondida, em nós, nos nossos sonhos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Sagrada Família

Hoje e no inicio de um novo ano, o dia mundial da paz é dedicado as famílias. A todas as sagradas famílias, e a todas as que se recusem a sê-lo. É lhes dedicada toda a paz e todo o amor que também elas cultivam a cada dia. Admiro muito todas aquelas que embora inundadas pelo sofrimento continuam a sorrir olhando-se a transbordar e acreditando-se, admiro-as muito, a força que as une, o amor que as encarece, o desejo de se fazerem felizes. De se fazerem felizes, a sua própria felicidade nasce daqui, da vontade incomensurável de ver no outro um olhar que já não cabe, um olhar preenchido. É tão bonita esta vontade imensa de querer dar, de querer fazer feliz, é uma benção este altruísmo que une a cada membro.
Quando no domingo, na missa do CREU, o padre Vasco nos falava “ no berço do amor e da vida”, amei tanto a minha, senti-a verdadeiramente como minha, senti que teria olhado para a minha mãe a transbordar, senti que acreditava na minha família plenamente. Sofri por todos os meus momentos de ausência e de incompreensão, de intolerância. E mesmo assim, mesmo percepcionando todos os estes instantes, tive a certeza de que éramos também nós uma sagrada família, e orgulhei-me muito. Senti-me gigante por pertencer a ela, e tão pequenina ao relembrar o calor com que me recebem. O calor dos Natais, dificilmente alguma outra família terá a chama dos nossos Natais, e dos nossos dias. Agradeci incessantemente a deus pelo berço que me deu.
E é também neste dia que peço a Deus que abrace todas as famílias que afogadas no sofrimento vivem amarguradas, aquelas famílias que se desacreditam e que se perderam. Que Deus lhes dê a luz de que tanto precisam e que as faça amar.


Família, “berço do amor e da vida”. Onde se não o próprio berço para aprender a vida e o amor? Onde se não o próprio berço para aprender a viver no amor? É esta família a base de tudo o que seremos, e é tudo o que nela formos que seremos ainda fora dela.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Voltaremos um dia


Voltaremos um dia, voltaremos um dia a caminhar no mesmo passo, voltaremos um dia a apertar as mãos, voltaremos um dia a marcar pegadas na areia, tal como naquele fim de tarde. Um fim de tarde cheio de sol, cheio de luz, cheio de nós. Guardei-o em meu peito, para que na nossa ausência, pudesse sentir-me cheia de ti, tal como me sinto agora. Ouço a tua gargalhada inocente, retracta-te tão bem ela. Retracta tão bem o sabor da tua vida, e preenche-me como nenhuma outra. Rimos tanto juntas, naquela tarde, tal como em tantos outras. Entregamo-nos a alegria de nos unirmos. Que alegria é para mim ter-te a meu lado. Que benção quando me olhas.
Desejei-te uma vez que pudesses voar, que não perdesses as asas nem os sonhos. Que não tivesses medo. Desejei ter-te sempre. Junto a mim. Hoje continuo a desejá-lo. Hoje preciso dessa tua luz, dessa tua sede de viver. Faz parte de mim, como algo que já me é intrínseco. Agradeço a Deus a oportunidade de te ter presente, comigo. Agradeço a Deus a forma encarecida como te amo, agradeço a Deus a graça que é amar-te assim. Caramba, tenho descoberto por entre os mundos o amor tão verdadeiro, tão puro. O teu, o de Deus. Repito vezes sem conta que me dói amar assim, me dói amar tanto assim... que me dói ser assim tão amada. Quando penso em tudo o que já nos dedicamos, quando penso em todo que já construímos, descubro a imensidão da nossa amizade. És verdadeiramente uma companheira de caminho- aquele que partilha o pão. Que bonito isto, que bonito sentir que multiplicamos os pães que partilhamos.
Na calada da noite, sonhando acordada penso em ti. Relembro-te, o teu riso, o teu rosto, a tua verdade. Olho o céu. Que brilhante está! Roubou o brilho do teu olhar enquanto dormias. É tarde, dormes certamente, e eu sonho contigo. Recordo os fragmentos do passado tão presentes. Choro a saudade, choro a tua ausência ou a minha não presença, choro a nossa distancia, tao próxima. Choro por medo, medo de te perder. Não te perderei, não a ti. Prometo-te que não deixo. E quando sentires completamente a minha falta. Quando te sentires vazia, sem mim, aperta com força o abraço que te dei em Opino. “ Que o abraço que te entrego hoje posso iluminar-te sempre que da minha luz precisares.”

Voltaremos um dia a caminhar, num fim de tarde.

domingo, 7 de outubro de 2007

Se me amas, não chores


Se conhecesses o mistério imenso

do céu onde agora vivo, este horizonte sem fim,

esta luz que tudo reveste e penetra,

não chorarias se me amas!

Estou já absorvido no encanto de Deus,

na sua infindável beleza.

Permanece em mim o teu amor,

uma enorme ternura,

que nem tu consegues imaginar.

Vivo numa alegria puríssima.

Nas angústias do tempo, pensa nesta casa

onde um dia estaremos reunidos

para além da morte, matando a sede na fonte

inesgostável da alegria e do amor infinito.

Não chores, se verdadeiramente me amas!



St. Agostinho

sábado, 6 de outubro de 2007

Salvar almas



Lá estava ele, enquanto o sol irradiava pela janela, lá estava ele. Preso a uma vida, que já nem ele esperava viver. Preso a uma sobrevivência que não o deixava morrer, tal como desejava. Olhava o sala em redor, implorando um olhar do mundo, a luz do sol. Que mal fizera o pobre homem? Que mal fizera ele, que parecia não merecer agora o amor de Deus? O único amor que julgara ter em toda sua vida.
Entrei na sala. Pensei em caminhar em frente, alias como fazia sempre, mas algo no seu olhar me deteve. Um olhar doce e seco, cansado de sentir as lágrimas percorrerem o rosto cansado, cansado do sabor salgado que também elas lhe traziam, cansado de si, cansado de morrer a cada dia. O abandono absoluto, presente ali, naquela alma. Até a vida o abandonara. Não, ele não vivia já, sobrevivia apenas. Pensei em continuar, pensei em executar apenas o trabalho que me confiaram. Pensei em abandona-lo, na dor que pertencia só a ele afinal. Num grito de silêncio, implorou-me mais uma vez que o salvasse. Como se eu fosse capaz.
O mundo ter-se-lhe-ia sido negado. Restava eu. No vazio da sala, restávamos só nos, eu e ele. Podia ter-me berrado, tocado a campainha, simulado alguma dor, mas não. Olhava-me apenas. Desfalecido naquela cama, largado como um cão à sua sorte. Um olhar baço dos corações famintos, e no rosto as marcas do cansaço de uma vida. Fechei os olhos. Mas a sua imagem permanecia em mim, presa a mim, tal como ele. Segui em sua direcção, parei e quase sem o olhar, como que amedrontada, perguntei-lhe se algo lhe doía, se precisava de algum sedativo. Não me respondeu. Virei costas, e senti o meu coração latejar com tanta crueldade. Como pude eu ser capaz? Acabara de o matar. Negara-lhe Deus. Inspirei profundamente e lembrei-me de todos os que já vira morrer. Não, não podia deixa-lo abandonar derradeiramente a vida. Ganhei coragem, tornei a caminhar em sua direcção. Não deixei de fixar o seu rosto, e caminhei. Senti o peso de cada passo em mim. Parei face-a-face. Reparei que ele gritava ainda no silêncio. Numa voz doce perguntei-lhe “ Dá-me a sua mão?”. A sua voz não soou. Era agora a sua vez de ser dono do medo. O medo duma criança perdida, que jamais tivera um presente. Tornei a perguntar “ Pode dar-me a sua mão?”. Quase desisti. Mas ele não desistira de mim, esticou a mão com toda a bravura que possuía ainda. Toquei-he e senti as mazelas da vida. O contraste do áspero e macio. Apertei-a como que dedicando aquele pobre homem, toda a força que Deus alguma vez me dera. Depois, depois abracei-o, entreguei naquele abraço todo o amor, entreguei-me naquele abraço. Um abraço fechado. Tão autentico tão nosso, indizível. Senti que chorava. Senti que aqueles olhos secos, eram finalmente lavados pela luz da vida. E chorei, chorei com ele, por ele, por mim, por nós. Também as minhas lágrimas decoravam o meu rosto, naquele aconchego, as lágrimas decoravam-me o rosto. Que paz flutuante, que abraço delicioso! Desejei permanecer ali eternamente. Desenlaçamo-nos e tornei a olha-lo no rosto. Trazia agora no olhar, a luz do mundo, a alegria duma criança que recebe um presente. Trazia no olhar o coração cheio. Vi Deus naquele homem, verdadeiramente. Vi amor nele. E vi a graça eterna. Esboçou um sorriso aberto, incomensurável. Esticou mais uma vez sua mão para que pudesse toca-la e sussurrou-me com toda a calma:
“ Que Deus te abençoe pela graça que constitui a tua vida”
Morreu em seguida. A sua mão perdera força e caíra. Já não era o abandono que transparecia, mas a paz. O sorriso aberto, não desaparecera. O amor pairava ainda no ar.
Percebi que o salvara. Não da doença, não essa jamais o largaria, mas da solidão e do abandono no qual tinha sido largado. Percebi que não era a doença que o matava a cada dia, mas a falta de compaixão. A falta de carinho, a falta de doação. Percebi que lhe devolvera a vida eterna. Devolvera-lhe o sabor de viver, que por segundos pode tornar a sentir. Devolvera-lhe a fé. Devolvera-lhe Deus.

Não mais pensei em fugir de um olhar, não mais ignorei um grito de silencio. Não posso, e ninguém deveria poder. Principalmente quem tem diariamente a oportunidade de salvar vidas, de salvar almas. É esse o encanto o verdadeiro encanto daquilo que escolhi para a minha vida. Foi isso que me propuseram, é nisso que acredito.